Cultura e Variedades  escrito em segunda 27 julho 2009 19:59

Blog de paulaoliveira :Paula Oliveira, Cultura e Variedades

Judaísmo pela paz

Vários estudiosos afirmam que os deuses das grandes religiões monoteístas são, na verdade, a mesma entidade: Javé, dos judeus; Deus, dos cristãos; e Alá, dos muçulmanos. No entanto, cada religião tem suas particularidades. O judaísmo é a religião monoteísta mais antiga do mundo e apóia-se em três pilares: na Torá, nas Boas Ações e na Adoração. Por ser uma religião que valoriza a moralidade, grande parte de seus preceitos baseia-se na indicação de comportamentos retos.

As escrituras sagradas e as leis judaicas remontam a aproximadamente 3.500 anos de vida espiritual. A Torá ou Pentateuco é o livro sagrado dos judeus, revelado por Deus, e corresponde aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento bíblico (os outros dois são Salmos e Profecias).

O judaísmo defende um conjunto de doutrinas que o distingue de outras religiões: a crença no Deus criador e a eleição de Israel como povo escolhido para receber a revelação da Torá, mandamentos desse Deus. Dentro da visão judaica do mundo, Deus é vivo, vibrante e ativo no universo; e o judeu é aquele que pertence a uma linhagem com um acordo infindável com esse Deus.

Há diversas tradições dentro do judaísmo que são seguidas pelas ramificações judaicas conforme sua interpretação. Entre as mais conhecidas encontra-se o uso de objetos religiosos como o quipá, adorno que cobre a cabeça e significa respeito e submissão ao criador; costumes alimentares e culturais, como não comer carne suína; o uso do hebraico como língua litúrgica; e o Shabat, dia do descanso, que se estende do pôr do sol de sexta-feira até o pôr do sol de sábado.

Existem três correntes judaicas principais: ortodoxa, que mantém rigorosamente os costumes e rituais em sua forma mais tradicional; conservadora, que não admite modificações profundas na essência de suas liturgias; e liberal.

No Brasil, os movimentos não-ortodoxos praticam o judaísmo “liberal”, que é a linha religiosa da Congregação Israelita Paulista (CIP).

“Quando falamos em judaísmo liberal, não estamos nos referindo a um novo tipo de religião, mas sim a uma interpretação que reconhece o caráter dinâmico da religião judaica”, afirma o Rabino Ruben Sternschein, que também é um dos administradores da CIP. Segundo o rabino, a corrente liberal dá uma ênfase àquela característica que é inerente ao judaísmo em geral: o princípio da progressão gradativa da religião judaica através dos tempos. O judaísmo liberal tem suas raízes no passado e reconhece plenamente a validade e a dignidade da milenar tradição judaica. “Os judeus liberais vivem com o passado, mas não no passado”, diz o religioso.

Muitas inovações introduzidas nas sinagogas pelos movimentos não-ortodoxos na Europa e nos Estados Unidos foram adotadas pela Congregação Israelita Paulista: o uso de instrumentos musicais e coros para acompanhar o serviço religioso; a recitação de várias orações em português, além do hebraico original: a prédica semanal; a celebração da Bat Mitzvá das meninas (simbolizando a passagem para a vida adulta) e a opção de homens e mulheres sentarem-se juntos, lado a lado, e não separados, como nas sinagogas que praticam o judaísmo ortodoxo.

Segundo o religioso Ruben Sternschein, rabino há treze anos, o judaísmo contribui para a paz através de três princípios básicos. “Preservar a vida é fundamental. Se para preservar uma vida um judeu precisar se esquivar dos costumes judaicos, ele não só pode como deve fugir às regras”, diz o rabino. Outros pontos importantes são a preservação do meio ambiente e a disposição para o diálogo inter-religioso, que são práticas essenciais.

Exemplo da afirmação do rabino Ruben Sternschein está nas escrituras. O cerne da Torá inclui o mandamento: “E amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Levítico 19.18). Os judeus acreditam que todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus e que toda pessoa deve ser digna de honra, respeito e dignidade, qualquer que seja sua raça, sexo ou afiliação religiosa. A tradição judaica ensina que “aquele que dá apoio a uma alma é considerado como tendo dado apoio a toda a humanidade”.

Paula Oliveira

 

O seu português e o pão francês.

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=5131

 

Midia alternativa, um novo horizonte

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=5076

 

Um Museu ao português

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=4514

 

Encontro sobre Segurança pública

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=4744

 

Congresso sobre qualidade de vida

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=4572

 

O grafite visceral de Ciro Schu

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=4521

 

Informação a serviço de quem?

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=4405

 

De Coruja a Cangurus

http://www.novolhar.com.br/noticia_edicoes.php?id=335

 

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Islamismo - Uma religião pacífica  escrito em quinta 30 julho 2009 16:33

Blog de paulaoliveira :Paula Oliveira, Islamismo - Uma religião pacífica

 

 

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O islamismo surgiu no ano de 622 na Arábia Saudita. Seu fundador foi o profeta Mohammad ou Maomé, que reuniu a base da fé islâmica num conjunto de versos conhecido como Alcorão – escrituras que foram reveladas a ele por Deus por intermédio do anjo Gabriel. A aceitação de um Deus único é idêntica à fé de judeus e cristãos. Deus tem o mesmo nome no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. “Todos nós somos mulçumanos, pois acreditamos no mesmo criador”, afirma o sheikh Armando Hussein Saleh, da Mesquita Brasil, em São Paulo.

Em árabe, islã significa “submissão” e refere-se à obrigação do muçulmano de seguir a vontade de Deus. O termo está ligado a outra palavra árabe, salam, que significa paz – o que reforça o caráter pacífico da fé islâmica. Esse termo surgiu por obra do profeta Maomé, que dedicou sua vida à tentativa de promover a paz em sua Arábia natal. Mas se engana quem pensa que todos os muçulmanos são árabes. Essa é uma distorção a respeito do islã.

O Oriente Médio reúne somente cerca de 18% da população muçulmana no mundo – sendo que turcos, afegãos e iranianos (persas) não são sequer árabes. Outros 30% de muçulmanos estão no subcontinente indiano, 20% no norte da África, 17% no sudeste da Ásia e 10% na Rússia e na China. Há minorias muçulmanas em quase todas as partes do mundo, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil. A maior comunidade islâmica do mundo vive na Indonésia.

Os muçulmanos estão divididos entre sunitas e xiitas. Os sunitas formam o tronco principal da religião e reúnem cerca de 90% dos muçulmanos no mundo. Os xiitas surgiram como movimento político de apoio a Ali, primo de Maomé, como herdeiro legítimo do poder no islã após a morte do profeta.

Cinco pilares do islamismo formam a estrutura de vida do seguidor, que deve praticar esses princípios básicos. Todo mulçumano deve declarar a fé intitulada chahada, que significa: “Não há outra divindade além de Deus, e Mohammad é seu mensageiro”. Realizar as cinco orações durante cada dia no ritual chamado salat é obrigatório.

Como não há autoridades hierárquicas, padres ou pastores, são os sheiks ou membros da comunidade com grande conhecimento do Alcorão que dirigem as orações. Os versos são recitados em árabe, e as súplicas pessoais são feitas no idioma de escolha do muçulmano. As orações são feitas ao amanhecer, ao meio-dia, no meio da tarde, no cair da noite e à noite. O ritual pode ser cumprido em qualquer lugar.

A solidariedade é uma obrigação do muçulmano, que deve doar parte de sua riqueza anualmente. “Se todos os muçulmanos praticassem o zakat, não haveria fome no mundo”, diz o sheikh. Segundo a legislação islâmica, 2,5% de tudo o que um mulçumano lucrar em um ano é destinado para ajudar o próximo. “É um direito de quem precisa e uma obrigação de quem tem condição financeira”, completa o líder religioso.

Jejuar durante o mês sagrado do Ramadã é um dos preceitos do muçulmano, que nesse período deve permanecer em jejum do amanhecer ao anoitecer, abstendo-se inclusive de bebida e sexo. As exceções são pessoas com algum tipo de incapacidade física – elas podem fazer o jejum em outra época do ano ou alimentar uma pessoa necessitada por cada dia que o jejum foi quebrado. Outro compromisso para quem tem saúde e condição financeira é a peregrinação a Meca, o haj, onde nasceu Maomé, criador do islamismo.

A participação da mulher mulçumana na sociedade pede uma atitude mais reservada. No entanto, segundo a seguidora Magali Vaz de Lima, as regras não são consideradas opressoras, ao contrário do que muitos supõem. “O islamismo pede que a mulher se cubra, mas essa é uma prática obrigatória na mesquita. Quanto aos nossos direitos, são iguais aos dos homens. A diferença é que a mulher, mesmo que trabalhe fora, tem sua obrigação de casa para dentro, enquanto o homem é quem cuida do sustento da família.”

Outra reflexão que merece destaque aborda a manipulação da mídia nos acontecimentos que envolvem terrorismo. “A mídia usa contra nós os homens-bomba, que se fazem de mártires. Esclareço que Deus proíbe o homicídio e o suicídio. O islamismo diz que salvar uma pessoa inocente é como salvar a humanidade. Os terroristas agem contra todas as nossas leis”, afirma Magali Vaz.

Já o sheikh Armando, ao opinar sobre os conflitos na Faixa de Gaza, afirma que o mundo pertence ao criador e que todos os judeus e palestinos têm direito a um Estado. Os conflitos são questões políticas e econômicas. “Se houvesse fé e religiosidade lá, não haveria guerra”, conclui o sheikh.


  Paula Oliveira

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De Japão a Brasil, mais de cem anos de imigração e de muitas histórias especiais  escrito em sábado 01 agosto 2009 00:34

Japão, 1895. Crise econômica. O crescimento populacional ultrapassa a demanda de empregos no país. Surge uma esperança chamada Tratado da Amizade, um acordo migratório que estimula a aproximação entre o Japão e o Brasil.


Brasil, início do século 20. Fazendas e lavouras de café necessitam de mão-de-obra estrangeira. Em 18 de junho de 1908, começa o processo de imigração. Chega ao Porto de Santos o Kasato Maru, primeiro navio com 165 famílias japonesas.


Nesse cenário, inicia-se uma história que influencia a vida, os costumes e o cotidiano de várias gerações. Há cem anos, dois países teoricamente antagônicos em filosofia, geografia, história e cultura unem-se e se reúnem num bairro chamado Liberdade. Essa liberdade, maior do que o próprio bairro, totalmente caracterizada com o suzuranto (luminárias), Toori (portal), jardins e vários outros marcos arquitetônicos orientais, representa a realidade concreta da unificação através das atividades desenvolvidas e vivenciadas pelos personagens que transitam por ela.


Histórias belíssimas de luta e conquista, como no caso do artesão Kyioshi Suzuki, 87 anos, que veio de barco para o Brasil, com os pais, aos 14 anos. Desembarcou no Porto de Santos e de lá foi para uma fazenda no interior de São Paulo, chamada Fazenda Aparecida. Passou um ano trabalhando descalço, porque não tinha dinheiro para comprar sapatos. Acabou desenvolvendo calos nos pés e carrapichos. Tentou tirá-los com remédio, foi ao médico e nada resolvia. Então desenvolveu sozinho uma lixa para raspar os calos e carrapichos. “Produzi cerca de 2.000 lixas enquanto trabalhava na fazenda, pensando que um dia poderia vender. E realmente, mais tarde, andando de ônibus na cidade, como eu não tinha dinheiro para pagar passagem, comecei a oferecer lixas para o cobrador e o motorista. A novidade espalhou-se rapidamente, e desde então eu crio, fabrico e vendo esses artigos”, conta Kyioshi.


O artesão trabalha na Feira da Liberdade há nove anos, produzindo e vendendo peças que vão desde lixas, cotonetes japoneses feitos de madeira, palhetas para violão, limpadores de língua em bambu e brinquedos lúdicos. Ele tornou-se uma verdadeira celebridade no local. Tirou fotos com Fernanda Lima e Gal Costa, foi entrevistado pelo jornalista Chico Pinheiro da Globo. Mesmo falando mal o português, atrai muitos visitantes com seu jeito simples, expansivo, carismático. Segundo ele, a perseverança e o trabalho são a chave do sucesso.


Outra história peculiar iniciada no bairro da Liberdade, local para onde os japoneses trouxeram a vontade de trabalhar, sua arte, costumes, língua, crenças e conhecimentos, é a do pastor Takeshi Ouno, da Paróquia Evangélica Luterana Japonesa do Brasil. Ele conta que o primeiro pastor, Tomoiti Aoki, veio ao Brasil em 1932 com uma missão de cunho assistencial e religioso, buscando amparar os luteranos japoneses que já estavam no Brasil. Aoki fundou a Igreja na rua Galvão Bueno, 4, na Liberdade em São Paulo, porém faleceu após cinco anos de atividade pastoral em 8 de dezembro de 1935. “Apesar de pouco tempo de serviço pastoral, ficaram marcados muito em nossos corações sua honestidade e dedicação ao ensinamento de Cristo. Até hoje é realizado culto em sua memória no túmulo no Cemitério do Redentor no começo de dezembro de cada ano”, lembra Takeshi.


A igreja passou por um período extremamente difícil na Segunda Guerra Mundial e foi fechada em fevereiro de 1942. Porém sete anos depois renasceu na rua Bela Flor, 110, Vila Mariana, e desde então os trabalhos não cessaram mais. Atualmente o pastor Takeshi Ouno é o responsável pela paróquia, na qual ele celebra todos os domingos cultos em japonês e em português. “Na paróquia existem 90 membros – a comunidade luterana japonesa é pequena, já que a religião não é dominante entre os nipônicos. Na igreja situada na Ana Rosa, por exemplo, os japoneses não falam português e inclusive os cultos são ministrados somente em japonês”, afirma o pastor.


Já na divisão da igreja que engloba a antiga igreja sul-americana, há muitos brasileiros, inclusive brasileiros sem descendência japonesa, que se interessam pela cultura oriental e querem aprender a língua japonesa. Ali há um bom intercâmbio cultural. “Hoje existe interesse da parte dos brasileiros pela cultura japonesa. Isso se nota na quantidade de produtos e tipos de artes que chegam até nós com freqüência cada vez maior”, afirma Kiroshi Fuji.


São muitas as histórias ao longo desses cem anos. O fato é que os nipônicos contribuíram e contribuem muito para o país. Juntamente com índios, africanos, italianos, alemães, espanhóis, árabes, chineses e muitos outros povos, os japoneses formam este lindo painel multicultural chamado Brasil.


Paula Oliveira.
Juliana Leite.

 

 

 

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Poetas  escrito em sexta 07 agosto 2009 17:39

 

Carlos Drummond de Andrade
Paula Oliveira

A Literatura brasileira comemorou em outubro de 2002 o centenário de Carlos Drummond de Andrade. Nesse ano eu escrevia para Revista Família Cristã e fiz uma matéria em homenagem ao grande poeta.

 

Cora Coralina - a grande poetisa Brasileira
Paula Oliveira

Cora Coralina (Ana Lins Guimarães Peixoto Bretas) se foi há vinte quatro anos, mas nos deixou suas lindas poesias. Nascida em Goiás, dia 20 de agosto de 1889, a poetisa brasileira,  embora escrevesse desde jovem, 14, teve seu primeiro livro publicado aos 76 anos...

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Vila Itororó no coração da cidade de São Paulo  escrito em sábado 29 agosto 2009 16:22

Blog de paulaoliveira :Paula Oliveira, Vila Itororó no coração da cidade de São Paulo

O Patrimônio está no lado par ou no lado ímpar da Vila?

Uma das construções mais excêntricas da cidade de São Paulo, a Vila Itororó, é um símbolo do Bixiga imigrante. Construída entre 1922  e 1930 pelo português Francisco de Castro, a Vila  ficou conhecida, na época, como Casa Surrealista. No entanto, o último remanescente das antigas vilas burguesas encontra-se em estado de degradação e abandono. A prefeitura, em vez de restaurar para preservar o Patrimônio Humano, desde 2006 quer desapropriar a área para transformar num grande centro cultural. Vamos adentrar a história?  

 

Localizada na Rua Martiniano de Carvalho, encontra-se a Vila Itororó, considerada uma das construções mais avançadas de São Paulo dos anos 20. A vila foi construída pelo tecelão português Francisco de Castro, proprietário de uma confecção em Piracicaba que resolveu vir para São Paulo construir sua residência na cidade.

 

Numa área de 4,5 mil metros quadrados foi construído o casarão de quatro andares, sendo o último andar no nível da Rua Martiniano de Carvalho, e 37 casas menores ao seu redor. Na época, a Avenida Vinte e Três de Maio era chamada Avenida Itororó, local onde existia originalmente o percurso do córrego Itororó. Aproveitando da nascente do local, na quadra entre as ruas Martiniano de Carvalho, Monsenhor Passalaqua, Maestro Cardim e Pedroso, o português Francisco de Castro, construiu também uma piscina, considerada até hoje a primeira piscina particular numa residência em São Paulo.

 

E foi assim com a implantação destas pequenas casas e a piscina, somado ao palacete conhecido como Casa das Colunatas, que todo o conjunto da Vila Itororó ficou conhecido por sua distinção estética. Sua arquitetura lembra muito a das vilas européias, além de possuir também características únicas já que em sua construção foram utilizados elementos retirados da demolição de um teatro, conferindo à obra um caráter peculiarmente onírico.  Assim, a implantação da Vila Itororó representa um momento único de desenho urbano no bairro da Bela Vista e na cidade de São Paulo, no qual o conjunto de  casas e uma piscina se articula por um pátio que é também, um espaço de convívio e de encontro dos moradores. 

 

Patrimônio: Histórico ou Humano. A proprietária do conjunto arquitetônico é a Santa Casa de Indaiatuba, que passou a ter a posse do local em 1950, após a morte do imigrante construtor da Vila Itororó. Atualmente, o local é ocupado por 79 famílias, cerca de 250 pessoas. 

 

A falta de interesse e do dono do conjunto e das autoridades, somado a ausência de pagamento de aluguéis e condomínio levou a Vila a uma situação precária. Existem desde famílias vivendo em casas bem cuidadas pelos próprios moradores, até pessoas morando em cortiços, algumas até improvisam camas onde antes eram locais de recreação. Muitas casas encontram-se degradadas, já que não há manutenção. A  deterioração e a falta de infra-estrutura impedem o local de atender as condições básicas de moradia .  

 

Onde está a preocupação com os moradores? Qual a responsabilidade da Prefeitura de São Paulo com relação à habitação? Fácil discernir quem está do lado da Vila, já que o patrimônio histórico em sua coerência não pode ser desculpa para sobrepor ao patrimônio humanístico contido na mesma. 

 

Vila Itororó: em Processo de Tombamento.

Em 1976, os arquitetos Benedito Lima de Toledo, Cláudio Tozzi e Décio Tozzi desenvolveram um “Projeto de Recuperação Urbana da Vila Itororó” solicitado pela Prefeitura Municipal de São Paulo e pela então COGEP – Coordenadoria Geral de Planejamento Urbano – de caráter sócio-cultural, focado nas atividades de lazer.

 

Na década de 1980 a Vila Itororó entrou em processo de tombamento pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo). Segundo a página da Prefeitura Municipal de São Paulo na internet, com acesso em 13 de junho de 2006, consta que a Vila Itororó “é tombada pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e é considerada um marco histórico, pois além de ser a primeira residência particular a possuir uma piscina na cidade de São Paulo, sua arquitetura também é ímpar.”
 

Desde 1997 a proprietária da Vila Itororó – Instituição Beneficente Augusto de Oliveira Camargo – não se comunica com os moradores, que até então pagavam o aluguel normalmente; e a imobiliária que administrava o local deixou de enviar o boleto de cobrança. Segundo o atual provedor da instituição beneficente, “a Vila Itororó foi tombada pelo patrimônio público, passando a não gerar qualquer recurso que pudesse ser empregado no hospital [Augusto de Oliveira Camargo – HAOC, administrado pela Instituição Beneficente].”

Em outubro de 2005, a Secretaria de Habitação declarou que a Vila Itororó faria parte do Programa de Recuperação de Cortiços. Em 20 de janeiro de 2006, a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) divulga a criação de um “pólo cultural” na Vila Itororó, e em 23 de janeiro seguinte, a Prefeitura declara a área de “utilidade pública para desapropriação”, retomando, e revisando pela SMC, a proposta da década de 1970. “É uma área que vai abrigar todas as coisas que pessoalmente gosto, dentre elas, um espaço para atividade de educação, cultura, turismo e lazer. Enfim, vamos fazer um centro cultural aberto para nossa população”– disse o prefeito, em 23/01/2006.
Em fevereiro de 2006, a Prefeitura Municipal de São Paulo apresenta propostas aos moradores: o Programa Carta de Crédito / CDHU – financiamento para aquisição de imóveis prontos (com valores entre R$ 20 e 40 mil). No entanto, apenas 5 das 71 famílias residentes hoje, parecem ter renda para a aferição final – além de que, esta opção inviabiliza a compra de qualquer imóvel na região.  

 

O Lado da Vila. Quem perguntou aos moradores da Vila se eles querem sair de lá?  Antonia Souza Candido, moradora e presidente da Associação de moradores da Vila Itororó, afirma que em momento algum os idealizadores do projeto dizem ou explicam que destino será dado aos atuais e antigos moradores da vila. Apenas oferecem uma carta de crédito com valores que vão desde 22 a 40 mil reais. “Eles querem que nos afastemos do local deixando toda nossa história, que viremos esta página de nossas vidas e liberemos o local para que eles possam ocupar da forma que melhor lhe aprouver. Por que não podemos fazer parte desta revitalização? Por que não usar estes valores de crédito para que os atuais moradores façam as reformas necessárias em seus imóveis, a área seria revitalizada da mesma forma e perderia este formato de cortiço deixando assim de envergonhar a nossa sociedade?” Estas são algumas das muitas perguntas que não calam! Já a auxiliar de enfermagem e moradora da Vila, Irene Calicchio, comenta que espaços culturais são fundamentais, mas com toda certeza no bairro da Bela Vista eles existem aos montes. “Se eles querem mesmo preservar a história da Vila Itororó, vão ter que nos preservar, pois, somos a própria história.”

Quem AMAVila conhece! 
A AMAVila, Associação de Moradores e Amigos da Vila Itororó, foi criada para defender os interesses dos moradores e manter a organização no local. A organização é composta por nove integrantes, sendo que oito deles são moradores da própria Vila. Apenas um integrante é externo, que é a arquiteta  e urbanista Aline Fidalgo Yamamoto.  Formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Aline conta que desde o ano passado realiza estudos minuciosos sobre a arquitetura da Vila, trabalhando em conjunto com outros profissionais da área, sendo eles os arquitetos; Fábio Steiner Rocha, Felipe de Freitas Moreira e Mário Sérgio Nader. “É importante elaborar um projeto que inclua a revitalização da área, restaurar a arquitetura em sua essência. Porém, imprescindível para tal, é preservar os verdadeiros patrimônios que fazem parte deste retrato humanístico que é a Vila Itororó: que são os moradores”, afirma a jovem.  Hoje a AMAVila conta com cerca de  cinqüenta e cinco associados/moradores  e  dez associados/amigos (externos).

 

Para outras informações, entre no endereço http://www.vilaitororo.blogspot.com/ e conheça mais sobre os moradores da Vila Itororó: os verdadeiros herdeiros de uma cultura que não pode extinguir: a nossa cultura. 

 

Um aparte para se pensar.“Nos barracos da cidade, ninguém mais tem ilusão. No poder da autoridade de tomar a decisão”. A música de Gilberto Gil retrata a realidade de pessoas que não têm acesso à moradia digna. Esse direito já estava previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, desde 1948. No Brasil, foi preciso tempo e luta para incluí-lo no artigo 6º da Constituição. Somente em 2000, por meio de uma emenda, a habitação adequada tornou-se direito do cidadão. Mas, afinal, o que é moradia digna? Para o cidadão que mora na Vila Itororó,  dignidade é cuidar de sua moradia e ficar, na Vila.

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