Judaísmo pela paz
Vários estudiosos afirmam que os deuses das grandes religiões monoteístas são, na verdade, a mesma entidade: Javé, dos judeus; Deus, dos cristãos; e Alá, dos muçulmanos. No entanto, cada religião tem suas particularidades. O judaísmo é a religião monoteísta mais antiga do mundo e apóia-se em três pilares: na Torá, nas Boas Ações e na Adoração. Por ser uma religião que valoriza a moralidade, grande parte de seus preceitos baseia-se na indicação de comportamentos retos.
As escrituras sagradas e as leis judaicas remontam a aproximadamente 3.500 anos de vida espiritual. A Torá ou Pentateuco é o livro sagrado dos judeus, revelado por Deus, e corresponde aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento bíblico (os outros dois são Salmos e Profecias).
O judaísmo defende um conjunto de doutrinas que o distingue de outras religiões: a crença no Deus criador e a eleição de Israel como povo escolhido para receber a revelação da Torá, mandamentos desse Deus. Dentro da visão judaica do mundo, Deus é vivo, vibrante e ativo no universo; e o judeu é aquele que pertence a uma linhagem com um acordo infindável com esse Deus.
Há diversas tradições dentro do judaísmo que são seguidas pelas ramificações judaicas conforme sua interpretação. Entre as mais conhecidas encontra-se o uso de objetos religiosos como o quipá, adorno que cobre a cabeça e significa respeito e submissão ao criador; costumes alimentares e culturais, como não comer carne suína; o uso do hebraico como língua litúrgica; e o Shabat, dia do descanso, que se estende do pôr do sol de sexta-feira até o pôr do sol de sábado.
Existem três correntes judaicas principais: ortodoxa, que mantém rigorosamente os costumes e rituais em sua forma mais tradicional; conservadora, que não admite modificações profundas na essência de suas liturgias; e liberal.
No Brasil, os movimentos não-ortodoxos praticam o judaísmo “liberal”, que é a linha religiosa da Congregação Israelita Paulista (CIP).
“Quando falamos em judaísmo liberal, não estamos nos referindo a um novo tipo de religião, mas sim a uma interpretação que reconhece o caráter dinâmico da religião judaica”, afirma o Rabino Ruben Sternschein, que também é um dos administradores da CIP. Segundo o rabino, a corrente liberal dá uma ênfase àquela característica que é inerente ao judaísmo em geral: o princípio da progressão gradativa da religião judaica através dos tempos. O judaísmo liberal tem suas raízes no passado e reconhece plenamente a validade e a dignidade da milenar tradição judaica. “Os judeus liberais vivem com o passado, mas não no passado”, diz o religioso.
Muitas inovações introduzidas nas sinagogas pelos movimentos não-ortodoxos na Europa e nos Estados Unidos foram adotadas pela Congregação Israelita Paulista: o uso de instrumentos musicais e coros para acompanhar o serviço religioso; a recitação de várias orações em português, além do hebraico original: a prédica semanal; a celebração da Bat Mitzvá das meninas (simbolizando a passagem para a vida adulta) e a opção de homens e mulheres sentarem-se juntos, lado a lado, e não separados, como nas sinagogas que praticam o judaísmo ortodoxo.
Segundo o religioso Ruben Sternschein, rabino há treze anos, o judaísmo contribui para a paz através de três princípios básicos. “Preservar a vida é fundamental. Se para preservar uma vida um judeu precisar se esquivar dos costumes judaicos, ele não só pode como deve fugir às regras”, diz o rabino. Outros pontos importantes são a preservação do meio ambiente e a disposição para o diálogo inter-religioso, que são práticas essenciais.
Exemplo da afirmação do rabino Ruben Sternschein está nas escrituras. O cerne da Torá inclui o mandamento: “E amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Levítico 19.18). Os judeus acreditam que todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus e que toda pessoa deve ser digna de honra, respeito e dignidade, qualquer que seja sua raça, sexo ou afiliação religiosa. A tradição judaica ensina que “aquele que dá apoio a uma alma é considerado como tendo dado apoio a toda a humanidade”.
Paula Oliveira
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